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Antonio Miranda
Brasil
Despertar das àguas
I
Águas estagnadas desde tempos imemoriais,
águas de chuvas empoçadas, nas margens
do rio, águas diluvianas evaporando-se
e retornando mornas, refeitas, minerais.
Aprazíveis. Águas decompostas, represadas,
como instintos domados, vazando
pelas várzeas, brenhas, banhados.
Águas turvas sob um céu de abismo,
gotas d’ água marcando águas lúcidas.
Natureza feraz, indiferente
aos clamores e valores humanos.
Em correntezas repentinas, em líquidas
paisagens de espanto e estupor.
Éramos tão pequenos naquelas águas
Todas, e árvores tão grandes! Tudo
tão longe ali tão perto e incerto.
Havia peixes escorregadios, promíscuos
e pássaros pairando nas alturas.
Águas feitas de suores dissolutos,
daqueles povos plantados na terra,
sem remissão e sossego. Condenados.
Seres alegres, saltitantes, loquazes, festivos,
como alimárias ribeirinhas domesticadas.
Esperançosos. Simples. Primitivos.
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